Resenha do filme “O homem que virou suco” de João Batista Andrade por Lucas Almeida

Essa resenha de longe abordará aspectos cinematográficos, assunto do qual tenho pouco conhecimento, no entanto abordará o tema do filme que me trouxe inúmeras reflexões e manteve acordado durante uma madrugada. 

    O filme “O homem que virou suco”  é uma produção brasileira produzida por João Batista Andrade, lançada em 1981 e aclamada tanto nacionalmente como lá fora. 

 A história conta sobre a vida de um Paraibano Nordestino chamado Deraldo José da Silva, que larga a vida no campo para tentar a sorte na cidade de São Paulo. Lá, ele tenta ganhar a vida vendendo poesia nas ruas, mas acaba enfrentando uma série de críticas e complicações. 

Primeiro lhe perguntam se tem “documento”, afinal ali era São Paulo e não o nordeste, todo bom paulistano tinha “documento”. Não tendo um, por ser caro de se conseguir, Deraldo é obrigado a deixar as ruas nas quais buscava vender sua poesia de panfleto que custava apenas dez (10) cruzeiros. 

As coisas começam a ficar complicadas quando o confundem com um operário assassino cujas mãos foram culpadas da morte do patrão da firma. Sem documento para provar a própria identidade tem que fugir da polícia e logo busca por emprego. 

Obrigado a trabalhar, buscou serviço entre homens que vendiam sua força bruta. Teve que desmistificar a história do assassinato, mais uma vez,  e trabalhar com serviço pesado, não aguentou. Pediu demissão e foi embora sem receber um tostão, mas para ele não era humilhação. Via gente se orgulhar de tanto se matar de trabalhar, mas diferente dos outros criticava o porquê e quando lhe vinham com a discriminação, por ser um nordestino sem noção, lhes mostrava a razão com uma poesia.

Ao longo da história se depara com gente de todos os tipos, pessoas como ele: nordestinas a trabalhar nas fábricas, como o dono do bar onde arranjou briga, como os patrões do trabalhos que frequentou, da mulher com quem dividiu a cama, da moça do hospital de quem teve tratamento até chegar no dono da fábrica, que mal falava português.

Esse trazia coisas de fora, uma engenhoca “audiovisual” para explicar pros operários o que era legal.  Prometia progresso, se trabalhassem comportados, se não criassem caso ou fizessem fuzuê. Dizia que era retrocesso. 

Deraldo lia cartas que os operários recebiam de suas famílias do interior, todas trazendo muito verdade e dor. Gente aos monte, sete ou oito, que queriam vender as terras e se “picar” para São Paulo, ganhar um salário mínimo e se matar de horas extras. Ele também escrevia respostas, já que os outros não eram tão letrados. Só mesmo abestados.  

Em suma, o filme retrata a vinda de um nordestino paraibano para São Paulo numa época em que a cidade estava em crescimento e a mão de obra era necessitada nas fábricas para as construções dos prédios.  Mostra a discriminação que o povo nordestino sofria (ainda sofre, de outras maneiras) e como a arte era banalizada, sem tempo. Afinal, o homem tinha mesmo é que se matar de trabalhar. 

Mas pra quem?

Pro inimigo opressor, pro imperialista mentiroso. Pro falante de inglês, pro chique e refinado. Pro maldito americano.  Pras suas fábricas que exploram, pros seus produtos que geram miséria.  

Enfim: 

Seguem trechos retirados do filme em diversos momentos de tela: 

“Tudo esses pau de arara é Silva” – Policial retrucando quando ouve o nome do personagem Ederaldo, que fora confundido com José Severino da Silva. 

“Aqui é São Paulo” – Homem aborda Deraldo numa rua (que me lembrou a Paulista) e o impede de vender sua poesia. 

“Pra que serve o nordeste? Pra enforcar o nordestino. E qual é o seu destino? É de ser cabra da peste”, “Pra que serve a cidade? Pra viver no corre corre”,   – Trechos da música que toca no final do filme: Mourão Voltado – Vital Farias. (https://youtu.be/w8YbTJfR_9o

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Autor:

Um garoto de 22 (quase 23) anos que anseia em se formar (logo e finalmente) em Letras, Tradutor e Intérprete. Que é louco por Coreano (idioma) e adora ler sobre assuntos diversos, especialmente aqueles que possam lhe trazer reflexões. Quando está inquieto, adora escrever histórias e trechos, ainda que nunca os termine.

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